Rankings são sempre polêmicos, mas no caso da Filarmônica de Berlim (Berliner
Philharmoniker) não costuma haver briga quando a orquestra é definida como a melhor do mundo.
A Filarmônica foi criada em 1882 e seus primeiros diretoresa alcançar o status de lenda foram Hans von Bulow e Arthur Nikisch, que ficou no cargo de 1895 até 1922. Wilhelm Furtwängler assumiu
em seguida. Herbert von Karajan tornou-se titular em 1956 e ficou no cargo até sua morte, em 1989.
A escolha de um maestro para dirigir a Filarmônica é o mais próximo que se tem, na música clássica, da escolha de um novo papa. A orquestra é autogerida, o que significa que a escolha é feita pelos músicos – sem sua aprovação, ninguém pisa no púlpito para comandar um concerto. E, como acontece com os papas, as gestões costumam ser longas.
O russo Kirill Petrenko, nascido em 1972, eleito na temporada 2019/20, é apenas seu oitavo maestro titular em 144 anos. O primeiro, Hans von Bülow, ficou seis anos, entre 1887 e 1892. Arthur Nikisch consolidou o prestígio da orquestra nos 27 anos seguintes. Willhelm Furtwängler, entre 1922 e 1945, liderou período ao mesmo tempo de altíssima qualidade musical e tenebroso, em que a orquestra tornou-se “garota-propaganda” do regime nazista. “Desnazificado” pelo tribunal dos Aliados no pós-1945, retornou à orquestra entre 1952 e 1954.
Durante o período nazista, a orquestra não tocou compositores judeus. No pós-guerra, quando teve como titular o romeno Sergiu Celibidache, que assumiu a direção em 1945, trocou a suástica pela águia norte-americana a mando do Comando Aliado, durante o processo de desnazificação. Com ênfase maciça numa penca de compositores norte-americanos, Copland e Barber à frente. Em 1954, quando Furtwängler morreu, Celibidache teve o tapete puxado pelo ex-nazista Herbert von Karajan.
Cada vez mais tornava-se evidente que a autogestão da orquestra não garantia liberdade de princípios ou resistência às investidas do poderoso de plantão. As orquestras sinfônicas estiveram historicamente atreladas ao jogo político vigente, por causa do alto grau de investimento que exigem; o grande contingente de mão de obra especializada necessária, o staff administrativo, além dos músicos, e os vínculos mais ou menos espúrios com o Estado, velados ou não. Ao assumir, Karajan iniciava o mais longo reinado de um maestro à frente da orquestra: 34 anos, entre 1955 e 1989.
Além de sua genialidade como maestro, perpetuou-se em vida porque transformou-a em um fenômeno de fato global, planetário. Consolidava-se, na década de 1950, o “long play”, lançado em 1948 pela Columbia norte-americana: dos 3 a 5 minutos do 78 rotações passava-se para dois lados de 23 a 26 minutos cada. Ideal para grande parte do repertório sinfônico. Karajan abraçou o LP, tornou a orquestra campeã de vendas no mundo todo. A ponto de ter sido consultado sobre a minutagem ideal do CD, criado em 1979 pela Sony. Foi o maestro que definiu sua duração máxima, a partir dos 75 minutos da Nona Sinfonia, de Beethoven. Pois maestro e músicos de Berlim encheram as burras com quatro integrais das sinfonias de Beethoven, uma versão em cada década de reinado do maestro, dos anos 60 aos 80.
Não seria justo atribuir a Karajan apenas tino comercial. Ele foi um músico extraordinário. Os dois maestros que o sucederam – pela ordem, o italiano Claudio Abbado e o britânico Simon Rattle – tiveram pela frente a dura tarefa de “humanizar” a orquestra.
Abbado rejeitou o modelo ditatorial de Karajan. “Para todos vocês, sou Claudio”: foi assim que se apresentou à orquestra quando subiu ao pódio para o primeiro ensaio, em 1989. Aliás, nos ensaios, falava em voz baixa, pouco mais que um murmúrio, obrigando os músicos a se inclinarem para ouvi-lo. O silêncio em torno de Abbado nunca era opressor, mas de concentração, expectativa e partilha. Quando algo não ia bem, ele parava, olhava para a orquestra, sorria gentilmente e dizia algo como: “Vamos tentar novamente, talvez com um pouco mais de respiração”. Impactava mais os músicos com sua decepção muda do que com as explosões de raiva de seu antecessor.
Sua relação com a música de Gustav Mahler não era apenas musical. Era ética. Ele acreditava que Mahler exigia verdade, humildade e honestidade existencial. Durante os ensaios da Nona Sinfonia, Abbado certa vez fez uma pausa e disse: “Não se trata de som. Trata-se de como nos desapegamos”. Quando lhe perguntavam por que seu Beethoven soava tão diferente do de Karajan, ele respondia: “Porque eu não sou Karajan – e Beethoven permite muitas verdades”.
A escolha de Simon Rattle em 2002 afastou ainda mais a atmosfera tensa dos 44 anos de Karajan. Rattle incluiu obras de compositores contemporâneos como Wolfgang Rihm, Sofia Gubaidulina e Thomas Adès. Lançou o Digital Concert Hall, portal de transmissão dos concertos ao vivo da filarmônica, com acesso ao riquíssimo *acervo digital de concertos e gravações.
Petrenko foi eleito como sucessor de Rattle em 2015, mas só assumiu efetivamente na temporada 2019/2020. Em fevereiro de 2022, protestou contra a invasão da Ucrânia pela Rússia, chamando-a de “facada nas costas de todo o mundo pacífico”. Há sete anos no comando da filarmônica, representa, de certo modo, um movimento de afirmação dos pilares básicos que a tornaram paradigma das orquestras do planeta.
A incontestável posição da Filarmônica de Berlim no ranking tornou a presença do grupo no fim de semana de 17 a 19 de outubro de 2026 em São Paulo uma ocasião marcante da cena musical.
A Filarmônica fez três concertos na Sala São Paulo, promovidos pela Tucca (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer): como parte especial do projeto Música pela Cura, o resultado financeiro do evento é destinado ao tratamento de crianças e adolescentes em situação de
vulnerabilidade com câncer.
No dia 17, os 12 Violoncelos da Filarmônica de Berlim fizeram uma apresentação extra, em uma noite única que reuniu grandes clássicos, jazz, chanson francesa, música latino-americana e arranjos especialmente escritos para o célebre conjunto.
No domingo, 18, o programa teve o Concerto para piano n.º 1, de Johannes Brahms, e Assim Falou Zaratustra, de Richard Strauss. No dia 19, foram apresentadas a abertura As Hébridas, de Mendelssohn, as Variações Enigma, de Elgar, e a Sinfonia n.º 4, de Tchaikovski.
O solista, no domingo, foi o pianista Víkingur Ólafsson, conhecido do público paulistano, já tendo se apresentado com a Osesp e também em recital na Sala São Paulo. A regência é do maestro titular do grupo, o russo Kirill Petrenko, no posto desde a temporada 2019/2020.
(Fonte: Estadão - 16.10.2026 / 18.10.2026 - partes)