O acordo foi firmado três dias após o segundo turno das eleições presidenciais — que resultou na reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT) — e em um cenário de crescente ceticismo quanto ao potencial de crescimento de empresas de inteligência artificial. Esses dois fatores têm influenciado as decisões de investimento tanto no Brasil quanto em outros países.
A Rivio aplica IA ao faturamento médico hospitalar, um processo complexo que envolve milhares de itens e procedimentos — muitos dos quais acabam não sendo cobrados ou são registrados incorretamente. Estima-se que os hospitais percam até 10% de sua receita em meio à burocracia necessária para a elaboração das contas hospitalares. "Ainda hoje, grandes hospitais contam com enfermeiros que anotam em papel cada dose de dipirona administrada, de forma semelhante a um hóspede de hotel que solicita um item extra para o seu quarto. Contudo, a escala das operações em um hospital é muito maior", explica Silvio Frison.
Uma internação hospitalar de uma semana gera uma conta médica de cerca de 100 páginas. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), foram realizados 2 bilhões de procedimentos no ano passado — incluindo exames, consultas, terapias e cirurgias. Cada um desses procedimentos, por sua vez, envolve uma série de etapas adicionais.
“Os hospitais brasileiros ainda operam com uma infraestrutura tecnológica que não acompanhou a complexidade do atendimento que prestam. O fato de algumas das principais instituições do país terem adotado nossa solução em um período tão curto mostra que o setor estava pronto para essa mudança. Ampliar nosso investimento é uma aposta na capacidade desta equipe de redesenhar a área da saúde no Brasil”, afirmou Carlos Costa, da Valor Capital.
A Rivio planejava, inicialmente, atender a um grande número de hospitais, mas revisou sua estratégia. O foco agora é trabalhar com instituições de referência para ajudar a disseminar o uso de IA na saúde — uma aplicação ainda pouco difundida, tanto no Brasil quanto no restante do mundo. Sua concorrente no mercado nacional é a Revena, que captou R$ 40 milhões no início de 2026.
Nos Estados Unidos, há mais empresas atuando nesse segmento, embora o modelo de negócio ainda seja relativamente novo. Uma delas é a Candid Health, que captou US$ 120 milhões junto à Sixth Street Growth em julho de 2026. O aporte triplicou o *valuation* (valor de mercado) da Candid em comparação com o patamar de 18 meses antes. Segundo a *startup* americana, ineficiências e desperdícios no faturamento médico somam US$ 280 bilhões por ano.
Dada a complexidade das contas médicas, o setor de saúde convive com uma prática conhecida como “glosa” (ou recusa de pagamento), na qual as operadoras de planos de saúde questionam procedimentos realizados por hospitais, clínicas e laboratórios.
Esses questionamentos podem atrasar ou impedir o pagamento, afetando o fluxo de caixa dos prestadores de serviços de saúde. Dados da Anahp, associação que representa cerca de 120 hospitais, mostram que as operadoras contestaram quase 16% da receita dessas instituições no ano passado. Após negociações entre as partes, esse percentual caiu para menos de 2%.
A IA da Rivio identifica erros antes que as contas médicas sejam enviadas às operadoras de planos de saúde. Isso ajuda a evitar interrupções no fluxo de caixa dos hospitais, causadas por contestações no faturamento. Os hospitais já enfrentam ciclos de pagamento longos, recebendo os valores, em média, cerca de 70 dias após a realização de um procedimento. Quando uma solicitação de pagamento é contestada, o recebimento pode levar até um ano.
“Ao utilizar inteligência artificial para identificar erros, as operadoras também são beneficiadas. O agente de IA começa a atuar assim que o paciente é registrado na admissão. O sistema consegue, então, detectar alterações na cobertura, a inclusão de um código de faturamento incorreto ou um procedimento atípico para um determinado tipo de tratamento”, afirmou Ricardo Sales.
Frison ressalta que este trabalho seria inviável sem a IA. Atualmente, hospitais e operadoras de saúde empregam centenas de enfermeiros auditores para conferir contas médicas manualmente. “É muito difícil que as pessoas não cometam erros quando há tantas variáveis”, observou ele.
Para auxiliar na sua atuação no segmento de gestão de faturamento médico, a Rivio constituiu um conselho consultivo formado por representantes dos setores de saúde e tecnologia, que também se tornaram acionistas da startup.
O grupo inclui Henrique Neves (Einstein), Paulo Chapchap (ex-líder do Sírio-Libanês e diretor médico do IEPS), José Marcelo de Oliveira (Oswaldo Cruz), Teresa Sacchetta (Conselho Brasileiro de Saúde Digital), Luiz De Luca (ex-executivo do Nove de Julho), Gustavo Meirelles (Afya) e Fernando Carneiro (Vila Nova Partners). O setor de tecnologia é representado por Mat Velloso (Docker; com passagens anteriores por Microsoft, Google e Meta) e River Mist (OpenAI). “São pessoas que conhecem muito bem seus respectivos setores e nos abrem portas”, afirmou o CEO da Rivio.
Olhando o panorama de novembro de 2026, a Rivio trabalha atualmente com 13 hospitais. Entre eles estão o Einstein, o Sírio-Libanês, o Alemão Oswaldo Cruz, o A.C.Camargo Cancer Center, o HCor, o São Camilo e a AACD, todos sediados na cidade de São Paulo.
(Fonte: Valor - 04.11.2026)