Um aglomeradão de gostosuras e culturas, sob as vigas metálicas e as coberturas envidraçadas, que, nos anos 2000, ganhou ares de destino gastronômico no Alto Marais, bairro que se tornaria um dos redutos bobo (burguês-boêmio) de Paris.
Entre os quase 20 balcões, ao fundo, à direita, o mais disputado talvez fosse o Les Enfants du Marché, aberto por Michael Grosman em 2017. A proposta, concebida com amigos, combinava cozinha bistronômica, pratos criativos, vinhos bem escolhidos, muitos deles naturais, e serviço direto no balcão. Sem reservas, era preciso esperar a vez para provar o que saía da cozinha aberta. E valia a pena.
Eram 18 estabelecimentos, entre operações gastronômicas e outros comércios, que avivavam toda a paisagem do bairro.
Na madrugada de domingo para segunda-feira, 12 de outubro de 2026, as chamas devastaram
o mercado coberto mais antigo da capital francesa. Não houve vítimas, mas a destruição atingiu um lugar com quatro séculos de história e cuja vida recente se fez também à mesa.
Lousas, pétalas, pães. O fogo consumiu os vestígios de um dia qualquer no Marché des Enfants Rouges, em Paris, e esfumaçou a vizinhança.
O incêndio não encerrou os planos de Grosman. Em uma publicação nas redes sociais, o restaurateur lamentou que parte da história do mercado tivesse virado cinzas, mas afirou que já pensa nos próximos passos. Procura uma casa temporária em Paris onde possa instalar uma cozinha e voltar a receber equipe e amigos. Pediu aos seguidores contatos, ideias e pistas para encontrar esse novo endereço.Claro, o Les Enfants du Marché não estava sozinho. O mercado abrigava o Chez Taeko, conhecido pelos bentôs japoneses; o Corossol, de cozinha caribenha; o The Butcher of Paris; o Burger Fermier des Enfants-Rouges; e traiteurs marroquinos, italianos e libaneses. Mais recentemente, chegaram a crêperie Lulu e a Roasted, especializada em frango.
O Enfants Rouges encontra um paralelo em Covent Garden, em Londres. A primeira referência escrita ao mercado inglês é de 1654. Os dois atravessaram séculos, mas seguiram caminhos diferentes: Covent Garden deixou de ser um mercado de frutas e verduras para se tornar um polo de compras,
cultura e gastronomia; no Marais, o comércio de alimentos frescos dividia espaço com cozinhas que convidavam a comer ali mesmo.
Agora, o mercado parisiense terá de encontrar um caminho de volta. As lousas, as pétalas e
os pães queimaram-se, mas a história não se apaga.
Agora, o mercado parisiense terá de encontrar um caminho de volta. As lousas, as pétalas e
os pães queimaram-se, mas a história não se apaga.
(Fonte: Estadão (Fernanda Meneggtti) - 18.10.2026)
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