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15 de mar. de 2026

Vinícola Villa Francioni / Vinícola Thera

          A família Freitas é um sobrenome que está na origem da vitivinicultura de altitude no Brasil. Foi Dilor Freitas quem, ainda no fim dos anos 1990, teve a intuição (e a coragem) de apostar no vinho em Santa Catarina quando quase ninguém olhava para a serra com esse interesse. Dali nasceu a Villa 
Francioni, o projeto fundador e decisivo para a região.
          Depois da morte de Dilor, o vinho não ficou como memória, virou continuidade. Seu filho João Paulo Freitas teve papel central na consolidação da Villa Francioni e, anos depois, deu um passo ainda mais ousado: criou, do zero, um ecossistema em torno do vinho. Assim nasceu a Fazenda Bom Retiro, no município de mesmo nome e, dentro dela, a Thera.
          Hoje (março de 2026), o projeto entra na terceira geração, com Abner Freitas como CEO da vinícola, dando continuidade ao trabalho construído ao lado de seu pai, João Paulo, que segue acompanhando cada etapa.
          Nada ali soa improvisado. A Thera não tenta impressionar com pirotecnia arquitetônica ou discursos grandiloquentes. O impacto vem da soma. Do conjunto da ópera. A pousada é silenciosa, integrada à paisagem, elegante sem esforço. O restaurante é um capítulo à parte: pratica uma cozinha afinada com o território, sem a ansiedade de “inventar moda”. É produto, ponto, técnica e tempo. Algo raro hoje em dia.
          Não por acaso, o Thera Wine Bar virou rapidamente um sucesso na região. Ali há cozinha com identidade e técnica. Luan Honorato, que comandou a cozinha do restaurante Nomade, do Nomaa Hotel, trocou Curitiba pela Serra Catarinense e vem fazendo um trabalho belíssimo: pratos precisos, produto em primeiro plano, e uma leitura muito madura do entorno. Nada de estrelismo. Tudo conversa 
com o vinho, comme il faut.
          Mas o que realmente diferencia a Thera não é só a hospitalidade. É a clareza do projeto. A vinícola faz parte de um ecossistema maior, a Fazenda Bom Retiro, que une vinho, natureza, arte e um braço residencial singular: os proprietários das casas podem produzir seus próprios vinhos, usando a estrutura, o conhecimento e a equipe da vinícola. Não é marketing. É enologia aplicada à vida real.
          O coração do projeto está na taça. E aqui a Thera se diferencia de vez.
          A enologia de Átila Zavarize revela um entendimento fino do terroir: o respeito à acidez natural, a extração comedida, a madeira como coadjuvante. O resultado aparece na consistência, algo que só se percebe quando se provam várias safras lado a lado. O Chardonnay é um dos brancos flagship da casa.
          Há algo de muito bem resolvido ali: fruta precisa, acidez viva, madeira em segundo plano. O 2024 está jovem, vibrante e mineral; o 2021 mostra equilíbrio e profundidade; e o 2017, ainda vivo e elegante, entrega algo raro no Brasil: capacidade real de guarda.
          Nos espumantes, a surpresa é ainda maior. Perlage finíssima, domínio do método tradicional, precisão de dosagem. O Blanc de Blancs Extra Brut é sedoso, persistente, refinado. Está, sem exagero, entre os melhores espumantes feitos hoje no país. Não por patriotismo. Por prova cega.
          Entre os tintos, vale uma atenção especial ao Pinot Noir 2020, suculento, preciso, com taninos delicados e fruta limpa. Um marco. O Montepulciano, ainda pouco comum por aqui, mostra estrutura e identidade. E o Syrah surpreende pela textura e pelo frescor, sem cair na caricatura do excesso.
          O mais impressionante, porém, não é um rótulo isolado. É a consistência. Provar várias safras do mesmo vinho e encontrar identidade é sinal de maturidade técnica. De entendimento do terroir. De gente que sabe o que está fazendo. De legado aplicado ao presente.
          Com certeza: a Serra Catarinense não está mais pedindo licença. Está oferecendo vinho de nível internacional, com sotaque próprio.
(Fonte: Brazil Journal (Luiz Gastão Bolonhez) - 01.03.2026)

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