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9 de abr. de 2026

Banco Digimais

          A Banco Digimais foi criada em 1981, no Rio Grande do Sul, pela família Renner, mesmo grupo por trás da varejista de moda Lojas Renner. Em 2009, o dono da Igreja Universal, Edir Macedo, anunciou a intenção de comprar uma participação de 40%, mas o negócio só foi concretizado em 2013, quando ele e a esposa Ester adquiriram uma fatia de 49%. Macedo era considerado investidor estrangeiro pelo Banco Central por ser domiciliado no exterior.
          Eles foram considerados pelo Banco Central como investidores estrangeiros, por terem domicílio no exterior e, assim, a compra precisou de um decreto da presidente Dilma Rousseff considerando o investimento como de interesse do governo brasileiro.
          Em 2018, já no governo Michel Temer, foi editado novo decreto com a possibilidade de a fatia estrangeira no capital ser elevada para até 80%. Na ocasião, o colunista Lauro Jardim, de O Globo, publicou que Edir Macedo vinha pressionando o governo para conseguir aumentar sua participação no banco, mas que esbarrava em objeções da área técnica do Banco Central.
          Questionado pelo jornal Valor sobre por que Edir Macedo é considerado investidor estrangeiro, o BC afirmou que, “nos termos da legislação vigente, o domicílio no exterior, que abrange o domicílio fiscal, caracteriza o investidor como estrangeiro, para fins de sua participação no Sistema Financeiro Nacional”.
          Em 2020 o Banco Renner também era dono do banco digital Digi+, que afirma ter mais de 100 mil clientes e patrocinou alguns clubes de futebol. Frederico Renner Mentz, filho de Felícitas (que fazia parte da administração do Banco Renner) é um dos idealizadores do projeto do Digi+.
          No início de julho de 2020, o bispo Edir Macedo, que já tinha uma fatia de 49% no Banco Renner, adquiriu o controle da instituição, após receber recentemente o aval do Banco Central.
Edir Macedo assumiu o controle do Banco Renner com participação indireta de 89,9% no capital votante e de 76,3% no capital total.
          Felícitas e Mathias Otto Renner faziam parte da administração do Banco Renner e eram os sócios controladores até a transferência agora para Edir Macedo.
          O diretor-presidente do banco é o bispo João Luiz Urbaneja. Segundo a instituição, ele é um “diretor homologado dentro das exigências e normas para exercer o cargo em qualquer instituição bancária e possui formação em marketing e MBA em gestão bancária. Possui 20 anos como bancário, além da experiência no mercado financeiro”
           Em dezembro de 2025, o jornal Valor noticiou que o Digimais enfrenta uma disputa judicial com o EXP1, fundo administrado pela Yards. Os problemas começaram meses depois de o banco transferir uma carteira de R$ 659,8 milhões para o fundo, em março de 2025, incluindo créditos originados pela Master e pelas empresas Reag e Fictor.  
          Em abril de 2026, vem a lume que o banco está com um patrimônio líquido negativo de 8,5 bilhões de reais.
          Em meio à situação negativa, o banco opera captando dinheiro via Certificado de Depósito Bancário (CDB) a uma taxa 125% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI).
          Os CDBs do banco Digimais, assim como os do Master, são distribuídos para pessoas físicas por meio de plataformas como BTG Pactual e XP Investimentos.
          Outro fato é que assim como Daniel Vorcaro vendeu uma carteira falsa do Master para o Banco Regional de Brasília (BRB), o Digimais recebe acusações do fundo EXP1.
          O fundo alega ter comprado 55 mil contratos da carteira de crédito consignado do Digimais por 650 milhões de reais. No entanto, o fundo explica que dos 55 mil, 22 mil não tinham lastro, ou seja, eram falsos.
          Após a descoberta do fundo, o banco Digimais confirmou a fraude e tentou oferecer novas carteiras ao fundo, que recuou da oferta e pediu o dinheiro investido de volta.
          O Digimais encerrou o terceiro trimestre de 2025 com prejuízo líquido de 252,6 milhões. Caso o banco quebre, o custo para o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) seria de cerca de 8 bilhões de reais,
contando depósitos à vista, como dinheiro em conta corrente, e depósitos a prazo (CDBs).
          O Digimais registrou lucro de R$ 31,3 milhões em 2025, mas isso só foi possível por conta do efeito de R$ 126 milhões da venda de R$ 741,436 milhões em unidades da Hermon ao seu acionista controlador. A CLA Brasil, que auditou as demonstrações financeiras, emitiu opinião com ressalva sobre a transação.
          Dos R$ 10 bilhões em ativos que o banco detinha em dezembro, R$ 1,9 bilhão era em direitos creditórios privados; R$ 1,7 bilhão em fundos de private equity; R$ 881 milhões em crédito pessoal; e R$ 688 milhões em crédito consignado.
          Em 23 de junho de 2026, a Polícia Federal do Brasil deflagrou a "Operação Miragem" para investigar supostos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional envolvendo o Digimais, banco controlado pelo bispo Edir Macedo.
          O Digimais já vinha sendo monitorado pelo Banco Central nos últimos anos e é acusado de utilizar o mesmo *modus operandi* do banco Master: inflar o balanço com ativos de difícil precificação para continuar captando depósitos e, assim, ocultar uma situação de insolvência.
          O caso soma-se aos escândalos envolvendo o banco de Daniel Vorcaro e às dificuldades enfrentadas pelo Banco de Brasília (BRB), demonstrando que o processo de saneamento do sistema financeiro ainda não terminou.
          Mais de 50 policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal de São Paulo. Também houve o bloqueio de até R$ 670 milhões em ativos dos investigados. Apesar de ser o acionista controlador do banco, Macedo não foi alvo da operação; ele reside em Miami.
          A Polícia Federal informou que a operação baseou-se em relatórios do Banco Central indicando que os investigados teriam manipulado demonstrações contábeis e registros regulatórios para ocultar a real situação financeira do banco, aparentar solvência perante órgãos fiscalizadores e viabilizar operações supostamente irregulares.
          O relatório policial aponta que o Digimais adotou práticas financeiras temerárias semelhantes às do Master. O documento afirma que o "modelo operacional" adotado pelo Master serviu de "paradigma" para outras instituições financeiras de médio porte, em um cenário de "contágio de mercado", no qual dependiam da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para "captar liquidez".
          "O Banco Digimais replicou a prática de superavaliação de ativos por meio da emissão de títulos com retornos desproporcionais aos indicadores de mercado, realizando manipulações no balanço com o objetivo de ocultar dos órgãos fiscalizadores a deterioração de sua carteira de crédito", afirmou a Polícia Federal.
          A operação atinge o Digimais justamente quando Macedo tentava vendê-lo ao BTG Pactual. Os dois bancos haviam firmado um acordo preliminar em abril de 2026. As negociações, no entanto, já enfrentavam dificuldades antes mesmo da operação da Polícia Federal.
          Em nota, o Digimais afirmou que "permanece à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos e colaborar com as investigações em curso". “A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena cooperação com as autoridades competentes.”
          O relatório da Polícia Federal mostra que o Banco Central vinha investigando possíveis irregularidades no Digimais desde 2023. Em fevereiro daquele ano, ocorreu a primeira etapa de aquisições de precatórios pelo fundo ID112. O fundo comprou, por R$ 9 milhões, créditos decorrentes de uma ação de indenização ajuizada em 1967 por herdeiros da família Villela contra o governo federal. O ativo foi então transferido para o fundo Guidare e reavaliado em R$ 100 milhões.
          Em junho de 2023, novas parcelas de precatórios foram compradas por R$ 22 milhões e, posteriormente, reavaliadas em R$ 130 milhões. Em setembro (2023), houve duas compras — desta vez pelo fundo Hermon — no valor de R$ 20 milhões cada, reavaliadas mais tarde em R$ 174,6 milhões.
          Para a Polícia Federal, a manobra “elevou o patrimônio registrado do fundo para R$ 741.348.945,70, embora o custo de aquisição dos ativos totalizasse apenas R$ 71.000.000,00”.
          Em sua auditoria das contas, o Banco Central constatou violações de normas nas reavaliações dos ativos e, por meio de uma notificação de outubro de 2023, determinou a “reversão de receitas” para que o valor das cotas do fundo retornasse ao custo de aquisição, ou seja, R$ 71 milhões.
          Apesar da orientação do Banco Central, o Digimais vendeu suas cotas no fundo Hermon para sua controladora indireta, a BA Empreendimentos, com pagamento previsto para 2032 e com a reversão das provisões que haviam sido determinadas pelo regulador. “A venda das cotas em uma estrutura que beneficia a empresa controladora, desconsidera limites de crédito e prevê remuneração de capital ao longo de anos, enquadra-se na conduta descrita no Artigo 17 da Lei nº 7.492/1986, que proíbe a concessão de empréstimos e adiantamentos a partes com relação de controle”, diz o relatório policial. Um especialista em contabilidade, falando sob condição de anonimato, afirmou que, se o acionista controlador tivesse adquirido as cotas à vista — com um efetivo ingresso de recursos no Digimais, a um valor econômico justificável e com o devido reconhecimento de perdas —, isso poderia ter ajudado o banco. Mas não foi isso o que aconteceu.
          "A Polícia Federal e o Banco Central parecem tratar essa estrutura como uma possível operação de crédito com o acionista controlador, inclusive pela remuneração ao longo do tempo e pelo prazo de pagamento. O ponto prudencial sensível é que isso teria preservado no balanço o efeito da reavaliação que o Banco Central ordenou que fosse revertida, sem uma recomposição imediata de capital ou de liquidez."
          Os mandados de busca e apreensão envolvem Marcelo de Lima Brasil, João Alves de Campos, Rodrigo Ruggero, João Luiz Urbaneja e Thiago Rodrigues Urbaneja, todos ligados à Digimais, além de José Roberto Giancoli Filho e Rodrigo Balassiano, da ID Corretora.
          Solicitado a comentar, o ID, administrador do fundo Hermon, disse que “adota padrões de governança rigorosos e esclarecerá suas atividades às autoridades e provará a integridade de suas operações”. A Bless, gestora de ativos do veículo, disse que ele não está sob investigação e não foi alvo de nenhuma ordem judicial relacionada ao caso. Em nota, “reafirma seu compromisso com a ética, a transparência e o cumprimento das normas que regem os mercados financeiros e de capitais do Brasil”.
          Após a Polícia Federal (PF) ter deflagrado em 2025 a Operação Carbono Oculto, para investigar a Reag Investimentos por lavagem de dinheiro e sonegação de impostos, executivos deixaram a empresa e levaram com eles dezenas de fundos e clientes para montar uma nova gestora. Para o novo negócio, 
eles se uniram a um antigo cliente da Reag que também é suspeito de usar fundos para driblar a Receita Federal. Os ex-executivos da Reag passaram a integrar uma empresa chamada Asarock, que tem atuado em parceria com um grupo de administradoras e gestoras de fundos de investimento chamado ID, que pertence a investigados pela PF por fraudes no banco Digimais. Na sua origem, a ID Gestora de Recursos foi aberta por um lobista que já foi alvo da PF em diversas investigações nos últimos anos. Juntas, a Asarock e a ID tiveram nos últimos meses (1º semestre de 2026) um salto de investimentos e ergueram uma espécie de “Reag 2.0”.
          A Asarock e a ID ainda são pouco conhecidas no mercado, mas já registram uma rápida ascensão no volume de negócios. A primeira, que reúne exdirigentes da Reag, nem sequer tinha uma página nas redes sociais em setembro de 2025. Hoje (junho de 2026), tem um saldo de R$ 15 bilhões sob sua gestão. Já a ID, dos ex-agentes do Banco Máxima, mantém uma carteira de R$ 40 bilhões de investidores. Há dois anos, o valor era bem mais baixo, na casa de R$ 5 bilhões. Dos mais de 600 fundos sob tutela do grupo formado por Asarock e empresas de nome ID, pelo menos 50 foram levados da Reag. O crescimento acelerado, em um período de meses, é semelhante ao da gestora liquidada no início de 2026 pelo Banco Central.
(Fonte: ValorInveste - 02.07.2020 / Veja Negócios - 08.04.2026 / Valor - 24.06.2026 / Estadão - 27.06.2026 - partes)

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