Total de visualizações de página

5 de out. de 2011

Novonor (ex-Odebrecht)

          O pernambucano Norberto Odebrecht nasceu em 1920 e aos 14 anos começa a trabalhar como pedreiro nas obras do pai. Em 1941, aos 21 anos, quando os negócios do pai passavam por sérias dificuldades financeiras, Norberto assume o comando. Em 1945, funda, na Bahia, a Norberto Odebrecht Construtora, empresa orientada para o trabalho coletivo e a descentralização administrativa.
          Em 1979, o grupo começa sua fase de internacionalização. No início dos anos 1990, Norberto passa o comando da empresa para o filho Emílio e em abril de 1998 deixa o conselho de administração da empresa e se afastou da administração do grupo.
          Por volta de 1992 ficava clara uma espécie de dupla personalidade do Grupo Odebrecht. Ao mesmo tempo em que ampliava seus negócios no exterior, no Brasil parecia ser "sinônimo de negociatas". Já tramitava na Câmara dos Deputados, projeto que procurava moralizar as licitações do setor público. "Muitas empreiteiras são compelidas a entrar no esquema", afirmava o deputado Luís Roberto Andrade Ponte, do PMDB-RS, autor do projeto. A Odebrecht era acusada de pagar propina de 30000 dólares ao ex-ministro do trabalho e Previdência Social Antônio Rogério Magri, em troca das obras do Canal da Maternidade. Foi flagrada incorporando à sua contabilidade notas frias no valor de 3,2 milhões de dólares referentes a supostos serviços de consultoria prestados por Paulo César Farias. Durante todo o escândalo PC-Collor, a Odebrecht esteve no epicentro das denúncias de corrupção. O chefe dos arapongas do governo Collor, Pedro Paulo Leoni Ramos, teria intercedido pela participação da Petrobras (vide origem da marca Petrobras neste blog) no financiamento de uma usina em Angola, no valor de US$ 100 milhões. Contemplada com a maior fatia da obra da usina de Xingó, em Alagoas, a empreiteira foi a única a receber da Eletrobras (vide origem da marca Eletrobras neste blog) o pagamento de faturas atrasadas.
          Em meados de 1999, a delicada situação financeira do grupo Odebrecht tirou da tranquilidade de sua aposentadoria o patriarca Norberto Odebrecht que voltou a manter reuniões de até 12 horas por dia com seu filho e sucessor, Emílio. O assunto em pauta nas conversas era o que fazer com o endividamento de 1,6 bilhão de dólares da Odebrecht na área petroquímica.
          No início de 2013, a Odebrecht decidiu adotar a mesma identidade visual para todas as suas empresas. A estratégia era clara: reforçar que, embora atuasse em segmentos diversos, a holding era dona de uma cultura forte e única, que a distinguia no mercado e que havia sido o motor de sua trajetória de sucesso no Brasil e no exterior. “É a síntese do que somos, do que acreditamos e de como agimos”, disse o então diretor-presidente do conglomerado, Marcelo Odebrecht, durante a reunião anual realizada em dezembro de 2012, em um hotel no litoral norte da Bahia. Ele ainda alertou: “Cada uma de nossas ações pode representar ganho ou dano de imagem mundial para a nossa marca.” O futuro se encarregou de comprovar que as palavras do executivo não poderiam ser mais acertadas.
          Norberto Odebrecht falece em 20 de julho de 2014, em Salvador.
          Em meados de 2014, a Norberto Odebrecht começa a ser citada na operação da Polícia Federal chamada Lava-Jato, junto com uma série de outras empreiteiras que teriam pagado propina a diretores da Petrobras em troca de contratos. Com faturamento de mais de 100 bilhões de reais, com mais de 170 mil funcionários e atuação em 27 países, a empresa atua no setor ambiental, agroindustrial, transporte, óleo e gás, indústria naval, defesa e tecnologia, construção e petroquímica, com participação na Braskem.
          Mesmo com este gigantismo, em junho de 2015 a companhia estremece com a prisão de seu CEO, Marcelo Odebrecht, filho de Emílio (e neto de Norberto), que havia assumido o comando do grupo em 2008. O desdobramento da operação Lava-Jato atinge em cheio os alicerces da construtora. Marcelo passa para prisão domiciliar em dezembro de 2017.
          A partir de 2015, a operação Lava-Jato revelou como o grupo operava. Baseada em uma extensa rede de propinas a políticos, sem distinção de cargos, partidos ou correntes ideológicas, os tentáculos da Odebrecht ultrapassaram as fronteiras do País. Mais de 70 executivos confessaram a corrupção enraizada na empresa e coordenada pelo Departamento de Operações Estruturadas, montado exclusivamente para esses fins. Marcelo foi preso. Seu pai, Emílio, afirmou que “esse sistema de fazer política acontecia há 30 anos”. E o grupo e sua marca passaram a figurar entre os principais símbolos das relações nada republicanas entre a iniciativa privada e a esfera pública.
          Com dívidas de quase 100 bilhões de reais no fim de 2014, o grupo Odebrecht decidiu vender uma usina hidrelétrica, parte de uma fábrica de armas, concessões de saneamento, um porto e participações minoritárias em outras companhias. Executivos da empreiteira revelaram à força-tarefa da Operação Lava-Jato as dimensões da crise da empresa: a companhia já demitira 70 mil pessoas.
          Em 2 de dezembro de 2016, a Organização Odebrecht publica um comunicado ("Desculpe, a Odebrecht errou") com um pedido de desculpas pelos atos de corrupção que praticou e que levaram a companhia a assinar o maior acordo de leniência já feito no mundo, no valor de R$ 6,7 bilhões. Levando em conta os juros que serão aplicados durante os 20 anos nos quais a multa foi parcelada, o desembolso vai superar R$ 8,5 bilhões. O acordo de leniência foi assinado em conjunto com delações dos principais nomes do grupo, a começar pelo filho e neto do fundador Norberto Odebrecht, respectivamente, Emílio e Marcelo Odebrecht. E 77 executivos do grupo assinaram o acordo coletivo de colaboração premiada.
          Visando melhorar a imagem profundamente chamuscada com a Operação Lava-Jato, o Grupo Odebrecht providenciou alterações radicais no nome de empresas sob o guarda-chuva do grupo, que levam o nome Odebrecht. A Odebrecht Realizações Imobiliárias passou a denominar-se OR, em novembro de 2017. A Odebrecht Agroindustrial passou para Atvos, em dezembro de 2017 e a Odebrecht Óleo e Gás, mudou seu nome para Ocyan em janeiro de 2018.
          Em meio aos esforços para virar a página, o grupo teria decidido alterar a marca de sua joia da coroa, a Odebrecht Engenharia e Construção, uma questão até há pouco inegociável com a família.
          Fica alguma dúvida no ar, porém, se esse é, de fato, o melhor caminho. Se o comando da empresa acredita que ela permanecerá no mercado e, após as desculpas já solicitadas, passando a trilhar um caminho claramente ético, e o ressurgimento do conglomerado como o gigante que era, o nome forte estampado em todas as empresas poderia facilitar a identificação do (novo) grupo.
          Das 15 companhias de antes do escândalo, restam sete. Dos 180.000 funcionários de 2014, restam pouco mais de 48.000 nos quadros da companhia, considerando dados de junho de 2019.
          Em 17 de junho de 2019, a Odebrecht S.A. (ODB) formalizou pedido de recuperação judicial na Justiça do estado de São Paulo. Segundo o grupo Odebrecht, o pedido de recuperação ajuizado contempla R$ 51 bilhões de créditos concursais, excluídos os créditos entre as próprias empresas do grupo e créditos extraconcursais. “Tanto as empresas operacionais como as auxiliares e a própria ODB continuam mantendo normalmente suas atividades, focadas no objetivo comum de assegurar estabilidade financeira e crescimento sustentável, preservando assim sua função social de garantir e gerar postos de trabalho”, diz, em nota, a Odebrecht.
          Com dívidas de R$ 98,5 bilhões (incluindo empréstimos intercompanhias), a empresa – que já foi símbolo da bonança da economia brasileira – agora é responsável pela maior recuperação judicial da história do País – e da América Latina. Dos R$ 98,5 bilhões, R$ 51 bilhões serão de fato renegociados com os credores; R$ 33 bilhões são de empréstimos intercompanhias; e R$ 14,5 bilhões são alienação fiduciária – boa parte referente a dívidas garantidas com ações da Braskem.
          O pedido de recuperação judicial exclui as sociedades Braskem S.A., Odebrecht Engenharia e Construção S.A., Ocyan S.A. (antiga 
Odebrecht Óleo e Gás), OR S.A., Odebrecht Transport S.A., Enseada Indústria Naval S.A., assim como alguns ativos operacionais na América Latina e suas respectivas subsidiárias. Também estão fora do pedido a Atvos Agroindustrial S.A., que já está em recuperação judicial, e a Odebrecht Corretora de Seguros, Odebrecht Previdência e Fundação Odebrecht.
          A gota d’água para o grupo foi o início do pedido de execução de uma dívida do Itaquerão (estádio do Corinthians) pela Caixa. Além de Caixa, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Santander, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Fundo de Investimento do FGTS (FI-FGTS) são os maiores credores do grupo.
          A Odebrecht anunciou, em 18 de dezembro de 2020, que, a partir de então passou a se chamar “Novonor”. Mudança é parte de esforço para mudar imagem e se desvincular de escândalos de corrupção descobertos a partir da Operação Lava-Jato. 
          Em 21 de maio de 2024, o ministro Dias Toffoli anulou toda a apuração e os processos da Operação Lava-Jato “praticados em desfavor” de Marcelo Odebrecht. No mesmo dia, o ministro Edson Fachin arquivou, a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), os inquéritos que investigavam o senador Renan Calheiros (MDB-AL) e o ex-senador Romero Jucá (MDB-RR) a partir da delação de executivos da antiga Odebrecht, atual Novonor.
          Como fica o grupo Novonor, antiga Odebrecht, a partir de janeiro de 2016, com a perda do controle acionário da Braskem, maior petroquímica das Américas? Pelo acordo anunciado em meados de dezembro de 2025 e que deveria ser concretizado em dois meses, a Novonor terá só 4% do capital, em ações preferenciais, como um investidor que receberá dividendos. O acerto envolveu cinco grandes credores e se materializa depois de diversas tentativas frustradas de venda da companhia. Ao longo de oito anos, cerca de uma dezena de interessados estrangeiros e nacionais avaliaram e fizeram ofertas pela petroquímica. Das gigantes LyondellBasell, uma das maiores empresas químicas do mundo, e Adnoc (estatal de petróleo dos Emirados Árabes Unidos) até as nacionais Unipar, J&F Investimentos e o empresário Nelson Tanure. Culminou no acordo firmado com a gestora IG-4 e os credores – Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e BNDES.
          O grupo Odebrecht já figurou como um dos maiores conglomerados empresariais do país, com faturamento bruto de R$ 124 bilhões em 2015. Em sua estratégia de se tornar uma potência na petroquímica brasileira, associou-se à Petrobras no início do século XXI com a ambição de consolidar o
setor no país, incorporando ativos de concorrentes, como Mariani e Suzano. Assim, foi gestada a Braskem. A entrada do grupo nesse setor ocorreu em 1979 e não parou. Até então, o negócio de
construção e engenharia, comandado pela CNO (Construtora Norberto Odebrecht), era a referência do grupo. A empresa se tornou a maior do país, se internacionalizou e virou OEC (Odebrecht Engenharia
e Construção). Chegou a faturar mais de R$ 58 bilhões em 2015, quando já estava na mira da Operação Lava-Jato. A operação conduzida pela Polícia Federal investigou entre 2014 e 2015 pagamento de
propinas em obras da Petrobras. A Lava-Jato atingiu em cheio as empreiteiras de obras públicas no país. Os principais líderes de negócios da Odebrecht, mais de 70 executivos, foram presos e fizeram acordos
de delação premiada.
          A OEC e o grupo foram à lona com o escândalo, e isso estremeceu inclusive as relações dentro da família. Marcelo Odebrecht, que era o presidente e ficou preso de junho de 2015 a dezembro de 2017, rompeu com o pai, Emílio, por não concordar com os termos do acordo de leniência com as autoridades. A família se dividiu e Marcelo foi afastado do grupo. O patriarca, nascido em 1946, então nomeou outro filho, Maurício Odebrecht, para ficar à frente da companhia, atuando no conselho de administração da Novonor, do qual é presidente. Emílio, que não foi preso, liderava as decisões estratégicas como acionista.
          A Odebrecht tentava se desvencilhar desse passado nebuloso. Um capítulo de uma desejada nova história da empresa começou a ser escrito no início de maio de 2019. O grupo anunciou a renovação da marca da Odebrecht Engenharia & Construção, que passa a adotar as iniciais OEC, seguidas pelo nome original na assinatura, em menor tamanho. As cores verde, azul e cinza substituem as antigas letras brancas dispostas sobre um fundo vermelho. Fruto de um trabalho de mais de um ano com a consultoria Keenwork, a estratégia teria o apoio de uma campanha de publicidade, que reforçaria temas como transparência e reconstrução. “Estamos percorrendo uma jornada robusta de transformação interna nos últimos anos”, diz Fábio Januário, CEO da OEC. “Chegamos a um ponto de maturidade nesse processo e entendemos que a nova identidade visual é um simbolismo dessa mudança".
          Principal berço dos subornos da Odebrecht revelados pela Lava-Jato, a OEC era o elemento mais emblemático na estratégia de reconstruir a holding. E a renovação da marca despertava diferentes avaliações. “A empresa não deveria esconder o nome Odebrecht. Ao contrário. Eles precisam assumir o que fizeram com todas as letras e comunicar fortemente o que estão fazendo para que isso não se repita”, diz Francisco Madia, sócio da consultoria Madiamundo Marketing. Outros componentes alimentavam essa análise. “As cores são mais sóbrias e menos ousadas. A intenção é ser discreto. Quanto menos chamar a atenção, melhor”, afirma Rosângela Florczack, professora da ESPM e pesquisadora em gestão de crise e reputação. Vale lembrar que outras empresas condenadas pela Lava- Jato fizeram o mesmo. Em 2017, a Engevix passou a se chamar Nova Engevix. Em agosto de 2018, foi a vez da Camargo Corrêa mudar o nome de sua holding para Mover.
          Há quem defendia que o nome Odebrecht deveria ser totalmente riscado do mapa. E que a mudança chega com atraso. “Essa estratégia teria mais efeito no começo dos escândalos. Agora, esse impacto positivo fica desidratado. Na essência, a lentidão reforçou o pecado original”, ressalta Herbert Steinberg, especialista em governança e presidente da consultoria Mesa Corporate. “O grupo esperava que sua reputação e nome forte o blindassem. Mas eles não contavam com a força da internet que, cada vez mais, não permite o esquecimento”, pondera Rosângela. Ela ressaltou, porém, um passo positivo da OEC: a criação de canais próprios nas principais redes sociais, o que sinaliza a intenção de estabelecer um diálogo direto com o público, especialmente, com interlocutores mais jovens, que ainda não têm uma imagem consolidada sobre a companhia. “Essa mudança de foco na comunicação e na marca é legítima, mas só será válida se for a cereja do bolo de uma grande remodelação interna”, diz, citando como um paralelo o caso da mineradora Vale, que assumiu a frase “Mariana Nunca Mais” como lema de uma nova abordagem depois da tragédia envolvendo a Samarco. “Brumadinho mostrou que isso era só um bordão. Não havia, de fato, uma transformação nas práticas da empresa.”
          Para ser um contraponto a casos como esse, a Odebrecht tem investido não só na mudança da embalagem, mas também do conteúdo. O ponto de partida para essa agenda foram os compromissos assumidos nos acordos de leniência assinados com autoridades brasileiras, americanas e de outros seis países. “Temos três grandes pilares de transformação. O primeiro deles é a nova geração de executivos que assumiu o comando das operações”, diz Januário, ele próprio um exemplo dessa iniciativa. Aos 47 anos, 25 deles dedicados ao grupo no qual ingressou como trainee, o executivo foi nomeado CEO da OEC em janeiro de 2017. Parte da cultura de preparar sucessores dentro de casa, esse processo foi acelerado quando nomes do alto escalão iniciaram a colaboração com a Justiça. Essa abordagem também incluiu os controladores, que foram afastados do dia a dia.
          A governança corporativa é outro mote. Uma das medidas envolveu a criação de conselhos de administração para cada uma das empresas do grupo. Ao menos 20% dos membros desses colegiados são conselheiros independentes. No caso da Odebrecht S.A., quatro dos seis integrantes se encaixam nesse perfil. “Além de independência e de maior transparência, eles trazem uma bagagem adicional de experiência que não tínhamos no passado”, afirma Januário. Para Wagner Giovanini, sócio-fundador da consultoria Compliance Total, esse movimento é extremamente positivo. Ele faz, no entanto, uma ressalva: “É preciso que esses conselheiros também sejam responsabilizados caso algo dê errado”, afirma. “Não era o que acontecia. Será que nenhum conselheiro sabia da existência do Departamento de Operações Estruturadas?”, questiona.
          O terceiro ponto é a adoção de políticas de conformidade, com uma série de iniciativas em andamento. O escopo envolve questões como a definição de regras de conduta no relacionamento com parceiros e clientes, treinamentos para disseminar essas novas práticas, auditorias periódicas em cada projeto e due diligence com toda a cadeia de fornecedores. Nessa última vertente, somente em 2018 foram realizadas mais de 17,5 mil análises. Outra frente é um canal interno, operado por uma empresa terceirizada, pelo qual é possível fazer denúncias de eventuais irregularidades e fraudes, sob confidencialidade.
          Esses relatos são apurados e podem gerar investigações que, por sua vez, incluem a possibilidade de desligamento dos envolvidos. “A empresa está dando sinais de que está fazendo a lição de casa. Mas ainda é cedo para dizer se eles vão conseguir virar a página de fato”, diz David Kallás, coordenador do Centro de Estudos em Negócios do Insper. Sócia na área de compliance e investigação do TozziniFreire Advogados, Shin Jae Kim acrescenta: “Se essa cultura não estiver sendo absorvida internamente, cedo ou tarde o mercado irá perceber. Não há como mascarar uma situação dessas por muito tempo.”
          À parte dessas iniciativas, o grupo tem percalços pela frente. Além dos danos gerados pela Lava Jato, incluindo aí as multas dos acordos de leniência, que podem chegar a R$ 6,8 bilhões, a crise econômica ajudou a corroer os resultados. A receita caiu de de R$ 108 bilhões, em 2014, para R$ 82 bilhões, em 2017. A queda brutal nos negócios forçou a holding a iniciar um plano de desinvestimentos. Em fase de tratativas, após um período de due diligence, o acordo com a holandesa LyondellBasell envolvendo a participação na Braskem deveria ser a próxima operação nesse balcão.
          A OEC, por sua vez, também tinha uma negociação importante pela frente. A empresa tentava reestruturar uma dívida de US$ 3 bilhões relativa a bônus emitidos no exterior. E assim como o grupo, seu desempenho seguia sendo afetado pelo contexto dos últimos anos. Em 2018, a receita líquida recuou 34%, para R$ 7,2 bilhões. A dívida bruta no período somou R$ 12 bilhões, diante de uma disponibilidade de caixa de R$ 1,8 bilhão. Apesar do cenário desafiador, Januário destacou alguns projetos então recém-conquistados, como a Termelétrica de Punta Catalina, na República Dominicana e a Hidrelétrica de Laúca, em Angola.
          Ele estabeleceu a meta de fechar 2019 com uma carteira de obras de US$ 7 bilhões. “Nós mapeamos um potencial de US$ 490 bilhões em projetos de infraestrutura nos próximos cinco anos. Desse total, vamos apresentar propostas firmes para mais de US$ 90 bilhões”, afirmou, ressaltando nesse radar mercados como Panamá, Peru, República Dominicana, Estados Unidos, Brasil e países da África portuguesa. Para o executivo, os avanços que a companhia vinhnam conquistando em governança e conformidade trariam vantagem competitiva nessas concorrências. E abririam caminho para outras guinadas, como a busca de novos sócios ou mesmo a abertura de capital da operação. Nesse último caso, a previsão era de uma janela favorável entre o fim de 2020 e o primeiro semestre de 2021. “São realidades para as quais estamos nos preparando. Mas vamos dar um passo de cada vez.”
          A direção da Odebrecht se comprometeu a pagar aos órgãos da União – AGU (Advocacia-Geral da União), CGU (Controladoria-Geral da União) e Ministério Público Federal – R$ 8,5 bilhões em multas e penalidades. A empresa também foi investigada no Peru, no Panamá, na Colômbia e em outros
países onde atuava. O grupo teve de vender ativos para amenizar a perda de receita, arcar com os ressarcimentos e custos e para quitar dívidas. Vendeu e saiu de empresas, como a Odebrecht Ambiental,
a primeira, em 2017. Depois vieram a Atvos (produtora de etanol, açúcar e energia) e muitas outras. Agora (janeiro de 2026), transfere a Braskem aos credores, quem têm um crédito atualizado a receber de R$ 20 bilhões.
          A maior empreiteira do Brasil, conhecida pelo sobrenome alemão de seu fundador, construiu uma história de sucesso que extrapolou não só os limites territoriais do país quanto os da legalidade das negociações, como foi revelado pela operação Lava-Jato. Agora, a empresa olha para o futuro com novas marcas e gestores cuja missão é zelar pela transparência e conformidade.
          O grupo sai dessa cena bem menor do que foi uma década atrás. Perde cerca de 90% de sua musculatura, em receita, e deixa para trás o sonho de ser protagonista no setor petroquímico. O desfecho da derrocada se deu em 2019, quando entrou com pedido de recuperação judicial listando dívidas da holding e algumas empresas de R$ 98 bilhões. Outras controladas, como a construtora, a companhia de óleo e gás e a Atvos, recorreram a processos de recuperação extrajudicial.
          De um grupo com receita consolidada, em 2025, de R$ 84,5 bilhões, a Novonor passa ao patamar de R$ 7 bilhões a R$ 8 bilhões sem a joia da coroa (Braskem). Porém, ao mesmo tempo, tira das costas o peso de uma dívida de R$ 40 bilhões da Braskem, que enfrenta um ciclo de baixa global de preços e demanda de resinas plásticas, que deve se alongar até 2027.
          É o momento da volta do grupo às suas origens, diz um interlocutor próximo da Novonor. O novo caminho, diz, passa pelo negócio de engenharia e construção, que começou em 1944, na Bahia, pelas mãos do fundador, Norberto Odebrecht. A construtora, que se agigantou e se internacionalizou, é onde a família colocará todas as fichas a partir de agora. O foco de atuação será em obras de infraestrutura.
          A Odebrecht Engenharia e Construção (OEC) permanece como o principal ativo da holding, que deixa de consolidar em seu balanço a receita de quase R$ 80 bilhões (números de 2024) da Braskem.
“A OEC continuará, por sua competência técnica na engenharia, a ser um player relevante no setor, apesar da perda de intensidade, mas não mais dominante, como no passado. As condições, de mercado e geopolíticas, mudaram muito”, afirma Claudio Frischtak, economista e sócio da consultoria em infraestrutura Inter. O especialista destaca dois cenários de mudanças atualmente: primeiro, o país está
aberto à entrada das estrangeiras na construção pesada, caso de grupos chineses, da Espanha e da Itália; segundo, crescimento orgânico das construtoras menores que entraram no vácuo das grandes após a Lava-Jato.
          Além da OEC, os demais negócios da Novonor são a incorporadora de imóveis OR, com
empreendimentos imobiliários em São Paulo, Bahia e outros Estados; o estaleiro Enseada, em Maragogipe (BA), que faz construção de navios, barcos e barcaças e reparos em plataformas; e a Nova Infra Invest, empresa voltada a obras de infraestrutura, ainda com maior presença no exterior (Peru e Panamá)
          Em 9 de junho de 2026, a Maha, uma empresa listada em Estocolmo com CEO brasileiro e 15% de suas ações nas mãos da gestora brasileira Starboard, comprou os últimos 16% que a Novonor (ex-Odebrecht) tinha na petroleira venezuelana PetroUrdaneta. Em março (2026), eles já haviam adquirido 24%. A PDVSA, estatal venezuelana, é dona dos outros 60%.
(Fonte: revista Exame - 14.04.1993 / 02.06.1999 / 22.07.2015 / jornal Folha de S.Paulo - 12.08.2016 / jornal Valor - 02.12.2016 / 04.06.2018 / revista Exame - 13.06.2018 / 17.06.2019 / OESP - 10.05.2019 / 17.06.2019 / Valor - 18.12.2020 / O Antagonistq - 22.05.2024 / Estadão - 18.01.2026 / InvestNews - 10.06.2026 - partes)

Nenhum comentário: